voltei, anos se passaram. nada mudou. as estações seguem nascendo e morrendo, mas o tempo se desdobra nos meus olhos. sou infância e estou cada vez mais louco.
perdi tudo, não sobrou nenhuma sanidade, todos se afastaram. estou livre, feito pluma atirada ao abismo. vago em qualquer direção e já não sinto nada. há dias que o suicídio parece uma opção corajosa, a única forma de controle sobre o meu próprio destino. não sei para onde posso ir, nem distinguir se há diferença entre os pássaros que voam para fora e para dentro do meu olho. corre, pelos fios das horas, uma navalhas cega que me corta a memória dolorosamente, extirpando tudo o que um dia foi alma. morrerei sem dúvida, sem mais- nem menos. não serei um retrato esquecido na cristaleira, não falarão dos acertos que tive ou das aventuras errantes que desenhei com meu passo torto. estarei cagado nessa hora, de todas as merdas, sujo de sangue, como vim ao mundo e como ninguém quer voltar à terra.
não há pena no abandono, só um sentir sujo que nos repugna.
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